A aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile

Autor: Gabriel García Márquez

Título: A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile

Lugar e ano de edição: Portugal, 2009

Editora: Dom Quixote

“A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile” é a reconstituição emocional, na primeira pessoa, do regresso clandestino do cineasta ao seu país de origem após doze anos de exílio.

Apesar de se dedicar ao cinema e à escrita, a sua postura política evidenciada no filme “O Chacal de Nahueltoro” acabou por o associar ao então presidente Salvador Allende, que, em 1971, o nomeou director estatal do Chile Films. A sua admiração por este presidente, extremamente evidenciada no livro, acabaria por lhe custar a permanência no seu próprio país, com a tomada do poder pelo general Augusto Pinochet. Consequentemente, exilou-se no México durante doze anos, onde continuou, com bastante êxito, o seu trabalho como cineasta, mas convivendo diariamente com a sua asfixiante condição de exilado.

A ideia do filme surgiu-lhe anos antes do efectivo regresso, mas foi sempre adiada pela publicação de listas dos exilados com permissão para regressar, onde o seu nome nunca figurava. Dois anos após ter perdido as esperanças, foi num jantar casual que o produtor italiano Luciano Balducci lhe disse, simplesmente, “o homem de que precisas está à tua espera em Paris”, tornando possível o que muitos consideraram, até então, uma mera fantasia de exílio. As seis semanas de gravações resultaram num filme de duas horas para o cinema e outro de quatro para a televisão, que mais tarde foram projectados em todo o mundo como instrumentos de denúncia da repressão de Pinochet.

O primeiro passo, introduzir legalmente no Chile três equipas europeias de filmagem, afigurou-se mais fácil do que o previsto. No entanto, “o drama de passar a ser outro” viria a revelar-se o processo mais complexo para o cineasta. Dois psicólogos e uma maquilhadora de cinema, sob a orientação de um perito em operações clandestinas, transformaram um chileno “realizador de cinema, pobre e inconformista”, expressivo, habitualmente de calças de ganga e blusão de caçador num uruguaio rico, num burguês satisfeito com fatos completos de algodão inglês, camisas feitas por medida e gravatas italianas. Littín foi obrigado a mudar também a sua forma de caminhar, de falar, e, acima de tudo, foi obrigado a esconder o seu riso característico, aquilo que mais o denunciaria. “Se ris, morres”. Viveu, durante algum tempo prévio à sua aventura, debaixo da sua nova identidade. Com o objectivo de criar novas memórias para evitar futuras contradições, habituou-se a um falso casamento e a uma falsa casa, o que mais tarde o ajudaria no desempenho do seu papel. Todos os esforços físicos e psicológicos tiveram o efeito esperado, já que nem a sua própria mãe, diante de Littín, o reconheceu, assim como os guardas do Palácio de la Moneda ou até o próprio Pinochet. A sua família, à qual foi inicialmente aconselhado a não informar sobre o plano de filmar no Chile, acabaria também por ser cúmplice da sua aventura: a sua mulher, Ely, recebeu fielmente em Madrid todos os metros de filme gravado que as equipas de filmagem enviavam.

Assim, em 1985, arriscando totalmente a vida, Miguel Littín decide regressar clandestinamente ao Chile para retratar a realidade do seu país ao fim de doze anos de ditadura militar. As seis semanas que se seguiram foram marcadas pelo medo, pela incerteza e pelo perigo presentes em cada esquina, em cada encontro com a polícia, em cada mudança de hotel. Pela nostalgia e, simultaneamente, pela desilusão, ao percorrer a cidade de Santiago outrora familiar e então tão diferente, tão mais moderna e desprovida da vida que a caracterizava. Pela impossibilidade de gritar nas ruas quem é, o que faz e por que o faz, sob o risco da morte do sonho e, mais do que tudo, de si próprio. No entanto, Littín pôde contar sempre com velhos amigos do tempo de Allende, pessoas em quem depositava a sua inteira confiança e que se revelaram importantíssimas no decorrer das gravações.

Miguel Littín submeteu-se a um interrogatório esgotante de uma semana com o escritor Gabriel García Márquez, que viu na sua história a força de um futuro livro, e assim foi imortalizado “o feito mais digno da sua vida”. Apesar de ser considerado uma reportagem devido ao método de investigação e ao carácter do material, alguns nomes e circunstâncias foram alterados para proteger os protagonistas que ainda viviam no Chile.

Cinco minutos depois, sobrevoando a neve rosada dos Andes ao entardecer, tomei consciência que as seis semanas que deixava para trás não eras as mais heróicas da minha vida, como eu achava quando cheguei, mas sim algo de mais importante: eram as mais dignas. Olhei para o relógio: cinco e dez. A essa hora, Pinochet tinha saído do gabinete com a sua corte de áulicos, percorrera a passos lentos a longa galeria deserta e descera ao primeiro andar pela sumptuosa escadaria atapetada, arrastando os 32 200 metros de rabo de burro que lhe tínhamos colado. Pensei em Helena com uma imensa gratidão. A hospedeira de olhos de esmeralda serviu-nos um cocktail de boas-vindas e informou-nos sem lho termos perguntado:

– Pensavam que havia um passageiro clandestino no avião.

Franquie e eu levantámos o copo em sua honra.

– Havia dois – disse. – Saúde!

Diana Tinoco

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