A Criança que Não Queria Falar

Autor: Torey Hayden
Título: A Criança que Não Queria Falar
Lugar e ano de edição: Lisboa, 2007
Editora: Editorial Presença

Psicóloga infantil e professora do ensino especial, Torey Hayden é uma conhecida autora norte-americana que relata, nos seus livros, as suas experiências com os seus alunos mais marcantes, abordando problemas como o autismo ou abusos sexuais. As suas obras não-fictícias são, portanto, imprescindíveis na formação de qualquer profissional da área da educação.

Seguindo esta mesma linha, “A Criança que Não Queria Falar” é a história verídica da sua relação com Sheila, uma criança de seis anos vítima de abandono pela mãe adolescente e, mais tarde, de maus tratos por parte do pai, passando posteriormente pela instabilidade própria dos centros de protecção à criança. As suas experiências torná-la-iam, inevitavelmente, perturbada e socialmente perigosa, representando uma ameaça para qualquer pessoa. Com apenas seis anos, Sheila já tivera três encontros com a polícia. O último e o mais grave, por ter pegado fogo a uma criança de três anos após a ter amarrado a uma árvore, tornou-a indesejável em qualquer outra escola, levando-a, por isso, à turma de ensino especial de Hayden, marcando o ponto de partida para a construção do emocionante relacionamento entre ambas.

Sheila ingressou na turma já quase a meio do ano lectivo, ultrapassando o número de vagas normalmente estabelecido. Até à sua chegada, a turma era composta por oito alunos, todos eles casos típicos do ensino especial: violência, tentativa de suicídio, autismo, atraso mental, abusos físicos e sexuais, esquizofrenia, paranóia e cegueira. Socialmente inadaptado, o nono elemento veio, então, ameaçar a harmonia que Torey tinha conseguido alcançar, dificilmente, com os seus oito alunos. O seu olhar hostil, o seu cheiro nauseabundo e a sua deseducação perturbaram mentalmente as outras crianças, desde o primeiro contacto. Para piorar a adaptação, Sheila não falava. Seguir-se-iam episódios trágicos que passariam a fazer parte do dia-a-dia, revelando à autora que o seu pulso teria de ser mais firme e que a sua atenção teria de ser redobrada.

No entanto, à medida que o tempo foi passando, Sheila foi-se lentamente adaptando à sua nova realidade. Começou a falar, aceitou tratar da sua higiene, adquiriu comportamentos aceitáveis para a convivência pacífica na sala de aula, e, acima de tudo, ganhou respeito e um carinho imenso pela professora. Mais do que uma relação profissional, o que se vê crescer entre ambas ao longo do livro é uma amizade, ultrapassando quaisquer barreiras que pudessem existir entre uma professora e uma aluna. Torey passaria a fazer parte da vida de Sheila e vice-versa, enriquecendo-as mutuamente enquanto pessoas.

O que a autora nos consegue transmitir, com esta e outras obras, é que nenhuma criança aparentemente inalcançável o é realmente. Exigem, sim, um nível de dedicação bastante superior ao que a maioria dos profissionais está disposta a dar.

Termino, assim, a minha dissertação com um pequeno excerto retirado do prólogo, no qual Torey Hayden nos explica, em poucas linhas, a realidade das crianças com quem convive diariamente e a razão que a levou à escrita deste livro, o primeiro de muitos.

Algumas destas crianças vivem com pesadelos tão medonhos nas suas cabeças, que cada movimento fica imbuído de um terror desconhecido. Algumas vivem debaixo de uma violência e perversidade impossíveis de expressar por palavras. Algumas vivem sem a dignidade concedida aos animais. Algumas vivem sem amor. Algumas vivem sem esperança. No entanto, aguentam. E, na sua maioria, aceitam, por desconhecerem outro tipo de atitude.

Este livro conta a história de uma só dessas crianças. Não foi escrito para despertar piedade. Nem para elogiar o trabalho de uma professora. Nem tão pouco deprimir aqueles que encontraram a paz na ignorância. Trata-se, em vez disso, de uma resposta à pergunta sobre a frustração inerente ao trabalho psiquiátrico. É um cântico à alma humana, porque esta menina é como todas as minhas outras crianças. Como todos nós. É uma sobrevivente.

 

Diana Tinoco

Advertisements

Deixar un comentario

Arquivado en Uncategorized

Deixar unha resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logotipo de WordPress.com

Estás a comentar desde a túa conta de WordPress.com. Sair / Cambiar )

Twitter picture

Estás a comentar desde a túa conta de Twitter. Sair / Cambiar )

Facebook photo

Estás a comentar desde a túa conta de Facebook. Sair / Cambiar )

Google+ photo

Estás a comentar desde a túa conta de Google+. Sair / Cambiar )

Conectando a %s