O Cantor de Tango

ImageAutor: Tomás Eloy Martínez

 

Título: O Cantor de Tango

Lugar e ano de edição: Portugal, 2008

Editora: ASA

  

Em “O Cantor de Tango”, Eloy Martínez mostra-nos a realidade através da ficção. É assim que, pelos olhos da personagem irreal Bruno Cadogan, conhecemos uma Buenos Aires perto do caos económico, arruinada, mas, ao mesmo tempo, majestosa, preservando, apesar de tudo, a beleza de um passado esplendoroso. Estamos no final de 2001 e a Argentina, sob o governo de Fernando de la Rúa, vive uma crise económica fatal, atingindo o auge da instabilidade social com as manifestações populares que ocorreram a 19 e a 20 de Dezembro.

Bruno Cadogan é um nova-iorquino que, durante a realização da sua tese de mestrado, toma conhecimento da existência de um cantor de tangos magnífico (também ele fictício), comumente considerado “ainda melhor que Gardel”, que devolveu ao género a sua pureza e a sua sensualidade originais, mas do qual não há nehuma gravação. Tomando-o como uma peça fundamental para a sua tese, Bruno decide viajar por três meses à capital argentina com o objectivo de assistir a um espectáculo do cantor, Julio Martel, e, eventualmente, até contactar com o próprio. Porém, esta busca revela-se mais difícil, perturbadora e apaixonante do que inicialmente se previra. Cansado, doente e inválido, Martel já não dá espectáculos marcados – aparece apenas em locais arbitrários da cidade, imprevisivelmente, cantando para si próprio e voltando a desaparecer. No entanto, Cadogan suspeita que o percurso das suas actuações tenha um propósito, e que, descobrindo alguma relação entre os locais, talvez consiga prever onde poderá encontrar Julio Martel.

Com a ajuda de Tucumano, um jovem que conhece no aeroporto, Bruno consegue hospedar-se no edifício onde o escritor Jorge Luis Borges localiza a acção do seu celebrado conto O Aleph. O que Tomas Eloy Martinez constrói, também, nesta obra, é uma relação íntima com o referido conto. Segundo Borges, o aleph é um ponto escondido numa cave que, apenas por o contemplar, se torna possível escrutinar todo o universo: toda a realidade percebida num único instante de contemplação. É graças a isso que, no conto, um escritor medíocre e incompreendido consegue, inesperadamente, escrever uma obra-prima. Se adaptarmos a história à obra em análise, percebemos rapidamente que, para a personagem pincipal, o aleph se resume a uma actuação de Martel, não só pelas descrições extraordinárias com que alguns argentinos relatam a experiência a Cadogan, mas, essencialmente, pela obsessão que o próprio desenvolve pelo tema.

A realidade através da ficção é-nos dada constantemente ao longo da sua busca exaustiva: nas suas deambulações, onde conhecemos uma Buenos Aires labiríntica, instável e encantadora;  nas suas reflexões pessoais, que nos transmitem alguma cultura do século XX; nas pessoas com quem se cruza, que nos contam inúmeras histórias sobre o passado da cidade e que, também, nos dão também a conhecer a crise em que vivem presentemente; e, como vimos a descobrir, até pelas próprias actuações imprevisíveis de Martel, que desenham, de facto, um mapa do passado obscuro da cidade. A realidade atinge o seu apogeu em relação à ficção no final da obra, de uma forma cronológica: no último capítulo, Dezembro de 2001, assistimos às manifestações populares contra o governo de Fernando de la Rúa, vividas por Bruno Cadogan, cuja consequência seria a renúncia do seu próprio mandato.

Quando chegámos à calle Uruguay, uma manifestação bloqueava o trânsito. (…) O velhote, que até esse momento tinha mantido a compostura, pôs a cabeça fora da janela e gritou: Expulsem de uma vez esses filhos da puta! Expulsem-nos a todos! Depois voltou-se para mim, que estava à sua esquerda, e disse-me com vivacidade, talvez com orgulho: Esta manhã tive o gosto de atirar uma pedrada ao carro do Presidente. Parti-lhe o pára-brisas. Teria gostado de lhe partir a cabeça. (…) Atravessar a cidade para me refugiar no Británico era uma loucura. A maré humana não cessava. Estava tudo fechado, mas as ruas fervilhavam e eu sentia-me sozinho como um cão, se é que os cães sentem solidão. Já era tarde, nove horas ou talvez mais, e aqueles que andavam de um lado para o outro davam a impressão de que tinham acabado de se levantar. Levavam colheres de pau, caçarolas, frigideiras velhas.

Concluindo, apesar de ser comumente classificada como uma novela, todo o contexto utilizado por Tomás Eloy Martínez neste livro é absolutamente real, desde os cenários até às muitas figuras referidas, como Carlos Gardel, Leopoldo Lugones e Borges. Há, apenas, que saber distinguir esses dois universos da literatura.

 

Diana Tinoco

 

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